Conforme notou uma leitora atenta e perspicaz deste bolgue, os adjectivos que estão escritos na página do primeiro desenho do post abaixo não se referem ao encontro anunciado em título, mas ao tipo de expressividade do desenho que é característico dos diários gráficos. Eles foram, aliás, retirados das palavras do Mário Bismarck, na sua apresentação. Gosto muito da expressão «desenho abreviado». Quando falamos de um desenho que parece pouco acabado ou que mostra pouca preocupação pelos detalhes, não significa que estamos a falar de um desenho que não se preocupa pela representação integral do motivo, como outros que parecem mais "fotográficos" É por isso também que prefiro a expressão «apontamento» a «esboço». «Esboço» deriva do italiano
Bozza, que significa, originalmente, uma pedra sem desbaste, pouco acabada. A evolução deste significado original para outro, o de um género gráfico, pode remeter para um tipo de desenho que foi deixado inacabado ou incompleto. Não é normalmente o caso dos desenhos dos diários gráficos, a não ser que seja um tique estilístico. A preocupação da representação pelo todo observado é muito mais frequente neste tipo de suporte. Tem é limitações de tempo, que é talvez a maior condicionante do desenho dos caderninhos. É por isso que tem que ser sintético e, quando é esse o objectivo, eficaz.
Mas, e perdoem-me a petulância, também não é de esquissos que estamos a falar, como me parece que se lhes referiu o mesmo Mário Bismarck. O esquisso, que deriva do italiano
Schizzo, refere-se a um desenho que é feito de rajada, de “esguicho”, rapidamente, mas, como assinala o nosso Francisco de Holanda, tem sempre origem na imaginação. O esquisso é por isso um desenho que se aproxima de uma atitude projectual, de previsão de soluções para um problema. Os desenhos dos diários gráficos são desenhos de contemplação e de degustação. Pouco tem a ver com o projecto. São, neste sentido, inúteis.
É fácil descobrir ligações entre apontamentos de observação de cadernos de alguns autores e projectos posteriores dos mesmos, mas as influências que uns têm sobre os outros, salvo algumas excepções, é rara. E isso é, muitas vezes, dito pelos próprios autores citados. Conclusão: Desenhar faz bem, e isso acaba por se reflectir em tudo o resto que fazemos.
Bom fim-de-semana.