
Leonardo da Vinci, Neptuno, c. 1504.
Os arrependimentos (pentimenti em italiano) constituem uma prática de composição e expressão gráfica desde o Renascimento. Leonardo foi o primeiro a assumir as correcções ou modificações introduzidas no traçado de uma composição, sem supressão do registo anterior, como uma forma declarada de expressão artística. Escreveu ele: «[...] Esboçai os retratos rapidamente, sem dar aos membros um acabamento excessivo: indicai a posição deles, que em seguida podereis desenvolver à vontade».
Para Leonardo a primeira e fundamental preocupação do artista era a capacidade de inventar e não a de executar, e para que o desenho possa tornar-se veículo e suporte da invenção era preciso que assumisse um carácter completamente diferente da precisão medieval, ou seja, que lembrasse «não o padrão do artífice, mas o esboço inspirado e livre do poeta. Só então o artista será livre para seguir a sua imaginação, aonde quer que ela o leve.», escreve ainda ele.
Claro que estas ideias estavam ligadas a uma pretensão artística, no sec. XVI, que via no desenho de aspecto inacabado (o schizzo e do bozzeto) uma forma de reconhecimento social . O início da autonomia do esquisso e do esboço em relação ao projecto a que diziam respeito, através da sua visibilidade para o publico em geral, tem a ver com a utilização destes como indícios da capacidade criativa e da facilidade gráfica de quem os praticava. A exaltação das qualidades expressivas deste tipo de desenho residia (e reside) precisamente no seu carácter único de espontaneidade e frescura. Não é assim de estranhar que os arrependimentos, as tais falhas gráficas num desenho, acabassem por funcionar como prova de um dom natural, ou seja, a capacidade superior de um génio criador.